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sábado, 7 de maio de 2011

* Clayse-Anne Medeiros

Abandono de incapaz? O que é, como se faz?

*Nádia Costa

 
A história da fundação de Roma é marcada por um ato sinistro: algo que hoje seria legalmente denominado “abandono de incapaz”. Mas o que é abandono de incapaz? O que significa dizer que alguém foi abandonado? Quando é que pode se dizer que alguém é incapaz? Deixemos as dúvidas para depois. Primeiro vamos à Roma, onde tudo começou. Segundo o relato, duas crianças foram abandonadas na selva, trata-se dos gêmeos Rômulo e Remo. Esses garotos foram encontrados por uma Loba que, milagrosamente, os adotou como seus próprios filhotes. Não pense que este ser altruísta sinalizava uma mulher de 40 anos. Não! Era, na verdade, uma Loba selvagem. O curioso é que este ser “não civilizado” acolheu os moleques com afetuosidade ensinando a eles sobre o mundo e a vida. Os meninos aprenderam todos os costumes selvagens, herança de seus pais adotivos. Quando cresceram e o mundo os descobriu foram batizados de “Os meninos Lobos”. Bem se isto é uma história real ou fantástica, quem poderá afirmar? O fato é que o conto maravilhoso nos encanta até hoje e nos leva a refletir sobre temáticas da “vida humana”. Como por exemplo, a questão do “abandono de incapaz”.


Esta história nos lembra que ainda hoje muitas crianças são abandonadas pela própria genitora, pessoas que se julgam “civilizadas”. Porém, nem sempre são resgatadas por uma “loba”. Lobas consideradas “animais selvagens” contrariam o seu instinto natural protegendo crianças e mães biológicas que as mata ou as entregam à própria sorte.  Afinal quem é civilizado e quem é selvagem nesta história? Quem é racional e quem é irracional?


E, nesta data maternal, sejam louvadas todas as mães lobas por sua atitude racional. No entanto, aquelas que, sendo humanas, agiram irracionalmente contrariando a sua natureza humana sejam revistas as suas penalidades. Pois só a elas são atribuídos o peso do ato inconseqüente. São atos realizados por “humanas” que num momento de desvario abandonam seus bebês em alguma “selva” deste planeta. “Bruxas”, “assassinas”, eis alguns dos rótulos dados pela sociedade. Como sentença final, ficam privadas de sua liberdade ou até perdem sua vida. Porém, o erro que lhes são atribuídos não foi cometido apenas por elas. Ao se dar um novo enfoque, certamente, a visão será outra.


Uma análise mais cuidadosa sobre a questão revelará um ser que foi vítima de toda sorte de abandono: do parceiro, da família, da sociedade. De modo, que ao sentir-se “incapaz” e sozinha trilhou por um caminho obscuro, na tentativa de solucionar o que lhe afligia. Nessa busca, tenta dar fim ao “objeto” que motivou sua exclusão social. Essa atitude caracteriza um ser “incapaz” e abandonado como o são seus rebentos. “Abandonar um incapaz”, segundo a lei, refere-se ao “comportamento de desamparar, deixar só, afasta-se da pessoa que estava sob sua guarda, proteção, vigilância ou autoridade, permitindo que ela venha a correr os riscos do abandono, face à sua incapacidade de defesa”. O texto legal defende além de crianças, idosos e quaisquer pessoas que estejam desprovidas de consciência e não possam responder por seus atos ou agir sozinhas. Não seria essa a situação das referidas mães? É incrível como um assunto que deveria ser particular, torna-se de domínio público. E o público irrefletidamente grita: _ crucifica!


Esse é o preço pago. Um alto preço por um delito que indiretamente foi cometido por muitos: parceiro, família e sociedade. Todos têm uma parcela nesse crime. É muito cômodo consentir e ratificar a “vox populi”.  Mas “incapaz” parece ser a própria sociedade que não propicia mecanismos que apoiem esses seres num momento de fragilidade psicológica?


Enfim a questão ser racional vs irracional não é biológica mas atitudinal. São as atitudes que definem quem é um ser racional ou irracional. Nessa perspectiva, a Loba romana, contrariando a sua natureza animal, foi racional enquanto alguns humanos...


Nesta data, a homenagem vai para as mães lobas, que foram “capazes” e não abandonaram a si mesmo. Pois abandonar um filho é não ter amor por si mesma...afinal, ele é a sua continuidade.

Um comentário:

Sara disse...

O mundo anda doente. Como diz a autora, na verdade, as mãos q jogam um bebê no lixo não são as mãos daquela mulher-mãe-que-rejeita-o-filho, são mãos maiores e imateriais. Nós simplificamos e crucificamos uma pessoa só, o bode expiatório, para nos preservar.